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Entrevista com Roseli Galves

Roseli Galves
Roseli Galves

Fim de férias, mais um ano letivo se inicia. A diretora da área de evangelização infantil do Centro Espírita União, em São Paulo, Roseli Galves Marques de Oliveira, aborda nessa entrevista a importância da espiritualidade para a formação integral do ser. Psicóloga com especialização em psicopedagogia, Roseli atuou por quase 30 anos nesse setor, na AACD-Associação de Assistência à Criança Deficiente.

Como lidar com a questão da criança com dificuldade de aprendizado na casa espírita?
Hoje nos deparamos com um grande número de crianças com distúrbio de aprendizagem, o que precisa ser muito bem estudado, necessitando de uma avaliação diagnóstica detalhada e multidisciplinar. Devemos trabalhar com a formação moral, levar a criança a identificar os valores cristãos. A mensagem de Jesus deve chegar a ela de uma forma simples, seja qual for a dificuldade que apresente. Deve tocar seu coração, fazendo-a sentir a mensagem à luz do espiritismo, com a explicação da imortalidade da alma e da reencarnação. Os mesmos distúrbios que aparecem na sala de aula de uma educação formal vão aparecer na sala de evangelização infantil. Por isso, o educador deve ter um respaldo, buscar um conhecimento sobre o desenvolvimento infantil. Ideal seria que o coordenador dessa área tivesse formação tanto na área de psicologia como de pedagogia infantil. Cada criança se desenvolve de acordo com as características da sua faixa etária, sendo necessários conteúdos específicos para a compreensão naquela idade, como também forma adequada para apresentá-los. Pedagogia é desenvolver estratégias que possam facilitar essa compreensão.

Qual a principal característica para aqueles que desejam trabalhar na área de educação junto às crianças na casa espírita?
É preciso ter vontade de aprender antes de ensinar. É imprescindível conhecer muito bem as obras básicas do espiritismo, estudar realmente Kardec. É preciso também dar liberdade à criança. Pestalozzi já dizia que deveríamos ter na educação a mão, o coração e a cabeça, para aprender/ transmitir informações. A mão significa a ação, o trabalho, o estar envolvido com a tarefa, não ficar só escutando; a cabeça, usando o raciocínio, ativando o aprendizado pela lógica; e o coração, aliado ao amor. É o conhecimento ligado ao sentimento, à amizade, à solidariedade, ao respeito, ao perdão. Todos esses sentimentos positivos, esses valores humanos têm que ser muito trabalhados.

Como entreter a criança acostumada à tecnologia, à rapidez das informações?
Nosso objetivo deve ser o de despertar o ser moral, no âmbito da espiritualidade da criança. A tecnologia pode auxiliar, é um recurso, mas devemos lembrar que Jesus, há dois mil anos, não tinha recurso tecnológico algum. No entanto, sua mensagem foi transmitida e assimilada por todos os seus apóstolos. Eles não só compreenderam a mensagem de forma significativa, como se apropriaram desse conhecimento e continuaram formando novos seguidores. E eles também tinham suas dificuldades…

Você acredita que as crianças de hoje tenham as mesmas dificuldades do passado?
Isso envolve a questão da maturidade espiritual em qualquer tempo. Quando a criança já é um espírito mais maduro, consciente das leis divinas, um espírito que já passou por um processo de aprendizado com muitas experiências, ela reencarna com maior facilidade para assimilar as verdades morais. No momento em que ela se depara com uma vivência que necessite dessa informação, ela florescerá naturalmente.

Falando em atualidade, qual o maior desafio para as crianças hoje?
O nível de ansiedade está muito grande, o que dificulta e muito a atenção. Elas não têm tempo de espera. A capacidade de lidar com a frustração também é muito pequena. Informação demais estressa a criança. É um excesso de videogame, de TV, de atividades extracurriculares. A criança não tem tempo para ela ser criança.

O que fazer com as crianças que não querem ir à casa espírita?
Os pais devem zelar pelo desenvolvimento integral da criança. Todos os cuidados com o corpo físico, o socorro nas enfermidades, a disciplina nas rotinas diárias: como sono, educação, higiene, devem também estar presentes em relação ao bem-estar moral, espiritual de seus filhos. Quando chega à idade certa de ir à escola, ela pode não querer ir, mas os pais não insistem, porque sabem que é necessário? O cuidado integral do ser envolve ainda a parte psíquica, alcançando-se maior equilíbrio com um lar harmonioso, sem conflitos, sem brigas, sem o uso das crianças em jogos emocionais, de disputa entre o casal, por exemplo. E há o âmbito da espiritualidade também. Os pais são responsáveis por encaminhar os filhos, ensiná-los, por exemplo, o valor da prece, a importância da fé.

Mas muitos pais tentam fazer isso e se sentem frustrados, com os filhos se negando a participar.
A responsabilidade dos pais termina na condição de não se criar um conflito maior, quando a criança se nega a ir à casa espírita. Porque também é necessário se dar o exemplo da paz, do respeito em família. A autoridade também deve ser usada com bom senso. E isso é o que mais precisamos desenvolver. O segredo está sempre no equilíbrio. Quando usamos da radicalidade, do autoritarismo em qualquer setor da vida e principalmente na educação, a resposta é sempre contrária a qualquer espécie de controle ou disciplina. A criança, se sentindo acuada, vai reagir no que chamamos de contracontrole, fazendo exatamente o que você não deseja.

Como a casa espírita pode auxiliar nesse conflito? As aulas de evangelização não estão ficando para trás, diante de uma demanda edxterna de atrativos tão diferente?
O objetivo maior da doutrina espírita é a transformação moral. O espiritismo é obra de educação. A evangelização infantil não pode ser apenas entretenimento. Há de se ter um objetivo maior. É claro que é muito bom quando a casa dispõe de uma opção para esse público, para que os pais assistam tranquilamente a uma palestra que uma criança de cinco anos não iria entender e nem ter o menor interesse. Um grupo infantil na evangelização vai aprender de uma forma condizente a sua faixa etária. Esse plano de trabalho deve ser muito bem elaborado.

Mas esse plano é diferente em cada casa espírita…
Sim. Hoje existe um grande número de apostilas, que ajudam os evangelizadores nesse planejamento de aula. O recurso visual é muito utilizado, ajuda inclusive nos distúrbios da aprendizagem, auditivo, etc… Mas é preciso lembrar sempre que esses recursos são instrumentos. Informações sensoriais auxiliam na sedimentação do conhecimento, da informação que se queira passar para que ela se torne de fato significativa para a criança.

Que respostas você tem percebido da criança em relação a esse trabalho?
Há crianças que trazem realmente um retorno muito positivo. Tivemos crianças que começaram conosco no trabalho de evangelização com cinco anos de idade e continuam até hoje na Casa. Outros seguiram outros rumos, mas o conteúdo que foi transmitido está ali. Recentemente tivemos a oportunidade de ouvir o depoimento de um desses jovens, que inclusive está fora do país. O pai completou 60 anos e ele deu um depoimento em vídeo no dia do seu aniversário. Foi lindíssimo, porque vimos que tudo aquilo que foi trabalhado, quando conversávamos sobre as leis morais, permanece bem vivo no seu coração. E lembro que era uma turma onde havia muito diálogo.

Você acredita que aí esteja o segredo para conquistar esse público?

Talvez essa evasão das crianças e dos jovens em relação às aulas seja porque não se está contextualizando, trazendo os princípios doutrinários para as situações do cotidiano, num debate, numa troca de ideias. Também há uma literatura infantil espírita fabulosa, filmes abordando, por exemplo, a reencarnação. O tema espiritualidade está aí ocupando espaços na mídia. Precisamos aproveitar!

Como explicar para as crianças que o cuidado com os valores morais é tão importante?

É preciso deixar muito claro, primeiro, que não somos perfeitos, mas que estamos a caminho. E esse caminho pode ser mais longo ou mais curto dependendo de nós. A criança não é perfeita e deve entender que seus pais também não o são. Todos temos nossas dificuldades, nossos conflitos. É preciso buscar a resposta de acordo com o que a criança realmente necessita. É preciso abstrair e a criança trabalha muito no concreto. E a espiritualidade é um assunto abstrato.

Outro desafio nas casas espíritas é o conflito gerado entre o dirigente do centro e os evangelizadores, exercendo ali certa censura a novas ideias… O que fazer quando isso ocorre?

Acredito muito no diálogo. É a ferramenta que temos para levar o nosso argumento de acordo com nossas expectativas. É preciso haver integração entre todos os trabalhos. Evitar trabalhos isolados, porque os trabalhadores de uma casa espírita, seja qual for a atividade, devem estar integrados inclusive para sustentar a vibração do ambiente.

E quanto à mediunidade, como proceder?
As crianças muitas vezes podem ver espíritos. Até os sete anos de idade, estão muito ligadas e abertas ao plano espiritual. Isso deve ser trabalhado com muito cuidado. Também na questão dos jovens, é preciso lembrar da inconveniência de encaminhá-los para os trabalhos mediúnicos, porque ainda estão sob efeito de toda uma formação, inclusive física – hormonal, orgânica. Ainda estão se encontrando como seres adultos. O trabalho mediúnico também exige muita disciplina. Eles estão, nesse momento da vida, mais preocupados com outros interesses.

O que fazer quando apresentar esses problemas?
Integrar-se em outras atividades da casa, assistindo a palestras e realizando algum trabalho que não seja sessão mediúnica. Deixar isso para mais tarde. Poderá cuidar da livraria, ajudar na biblioteca. Trabalhar com a mediunidade ficará um pouco mais para frente, quando houver a certeza de que seja necessário.

O pensamento de Pestalozzi
O pensamento de Pestalozzi

O pensamento de Pestalozzi
Na concepção de Pestalozzi, a criança é um ser puro, bom em sua essência e possuidor de uma natureza divina que irá se desenvolver em vários estágios, que devem ser cultivados para florescer em sua plenitude a seu tempo. O aprendizado será assim conduzido em grande parte pelo próprio aluno, com base na experimentação prática e na vivência intelectual, sensorial e emocional do conhecimento. O que importa não é tanto o conteúdo, mas o desenvolvimento das habilidades e dos valores.
Para ele:

* A intuição é fundamento da instrução.
* A linguagem deve estar ligada à intuição.
* A época de ensinar não é a de julgar e criticar.
* O ensino deve começar pelos elementos mais simples, e continuar de acordo com o desenvolvimento da criança.
* É preciso aliar a ação ao saber.
* As relações entre mestre e aluno devem ser fundadas no amor e por ele governadas.
* A individualidade do aluno deve ser sagrada para o educador

Publicado no jornal Correio Fraterno – Edição 473 – Janeiro/Fevereiro 2017

Por Eliana Haddad